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DESERTO LUNAR

ANA TEIA

Poesia



Publicado por Ana Teia através da Smashwords

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Copyright 2018 Ana Teia

Capa: Luís Teia


Descubra outros livros da Autora:

“Trama”

“Na Relva onde Dormem as Formigas”

“A Menina do Casaco Vermelho”


Capítulos:

~~~ Lua Nova ~~~

~~~ Quarto Crescente ~~~

~~~ Lua Cheia ~~~

~~~ Quarto Minguante ~~~


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Outros livros da Autora

A Menina do Casaco Vermelho (Excerto)

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LUA NOVA


5 de Junho de 1995


O adeus do olhar
É o mais triste,
O mais só...
É o silêncio, é o nó,
Dificil de dar,
Daquilo que persiste.

Tu disseste-me adeus
Nos olhos inchados
Aparentemente,
De modo indiferente.

Só que vi neles
A dor, a tristeza,
Dos sonhos calados...

Seguiram-me, ao sair,
Teus olhos mortiços
Rodando, em lentidão,
Nos poços que habitam.

À volta, sorrisos,
Pessoas que ficam,
Movimento, agitação.

Mas nos teus lábios
Pairava a imagem,
Qual miragem,
De teus olhos sábios.

Ao teu sorriso
Nunca o perderei,
Colou-se, apegou-se,
Faz parte de mim,
Assim como a certeza,
Que não preciso,
De que também
Morrerei!

Vais partir,
Eu vou ficar.
Quanto tempo?
Talvez só aquele
Que o teu olhar,
Suave e lento,
Me vá permitir.

Cerra-os, morre,
Deixa-os comigo,
Aos teus olhos,
Ao teu sorriso amigo.

Nada mais quero
De ti recordar,
Sòmente o adeus,
Calmo e sereno,
Do teu olhar, pleno
De Morte e de Vida...

Estás de partida,
E, embora toldado,
De lágrimas vidrado,
Aqui fica, amiga,
O adeus furtivo,
Sem paz, perturbado,
Deste meu olhar.

Tu morres, eu vivo,
E o meu adeus
É mais triste,
O meu desespero
Maior e mais forte,
Dos que jamais sentiste!

O teu adeus é sereno,
O meu é revolta,
Pisas bem o terreno
Do que vai e não volta!

Eu não queria que
Morresses assim,
Por isso eu morro
E tu vives por mim
No adeus doce e lagunar
Que, ao sair,
Me enviou teu olhar.

Falavas, sorrias,
E com ele me dizias
(Vou-me embora).

Contavas anedotas,
Arfavas o ar
Que a custo sorvias
E com ele me dizias
(Não mais te verei!)
“Já vais? Até breve.”

(Não lamentes,
Lá, onde estarei,
Não mais sofrerei.)

“Cumprimentos!”
“Serão entregues.”

E os teus olhos, nos meus (Ah! Adeus, até sempre, amiga) disseram...

Quis chorar, desesperar,
Mas eles não deixaram.
Mansamente, impuseram
(Vai e não voltes
Até tudo acabar.
E está bem, podes,
Leva o meu olhar
Para que me recordes.

E não te revoltes,
Eu vou ficar bem.
A minha hora é chegada
-chega sempre para alguém-
Tu é que ficas,
Como todos os outros,
Em morte adiada!)

“Ah! E dá cumprimentos,
Eu estou bem, obrigada.”


Aveiro

Escorria veneno
Daquelas paredes

Telhas de ácido
Quintal de bruxas
Casa sem Deus
Sem Deus vai ficar…

No reino do Mal
Permanece, obscura,
Semente futura
De ódios, de angústia.

Cercada de mato,
De lava passada,
Vulcão de egoismo
Monstro maldito

Malefícios
Feitiços
De tudo um pouco
Nela se banhava
Havia espuma verde
Nos cantos, encostas
À volta, adejantes

Fria e louca
A casa de então…

O que mais dói
O que mata de dor
É que já existe veneno
Já escorre o ácido,
Corrosivo e lento,
Nas doces paredes
Da casa-abrigo
Onde os meus sonhos
Lentamente agonizam,
Hoje!


Alentejo

A sombra já é,
No topo da Sé,
Cinzenta, bisonha,
Na tarde tristonha...

A noite que vem
No gesto de quem
Espreguiça seus modos,
Tem tempo e a rodos.

Na aldeia,
A Sé é o Centro
Da gente dali,
Mesmo da ateia,
Que a todo o momento
Respira e sorri
O ar da igreja...

Não há quem não veja
O sino no alto
Onde a sombra verdeja
No canteiro, socalco.
Dormem as gentes
À porta, indolentes,
Ao Sol desta terra.

Alentejo sem serra
Na planície implacável
Barro moldável
Na mão do calor,
Morno ou ardente,
Deste céu, desta gente.

Alentejo açoite
Das charnecas.
Dos seres,
De poucos haveres,
Cansados de secas.

Casas em cubo
Brancas, leitosas
Servindo de escudo
Nas mãos engenhosas
Dos homens sem nome,



Pachorrentos e lentos,
Sòmente pronome,
De frases, lamento...

A sombra que cai,
Ao cair do dia,
É frescura que sai
De um céu, quem diria,
Sem núvens, só Sol
Escaldente,
Sufocante,
Tornando-se mole
Ao chegar às casas,
Aos homens sem asas,
Bem presos ao chão.
(São restos, carvão
Esquecido da mina)

Alentejo, planície
Que manda, domina,
Os fósseis lagartos,
Estirados às portas
Cansados e fartos!

Quanto à sombra
Que assoma,
Que tomba,
Embuçada na noite,
É a brisa que vem
Que compensa
E refresca,
A gente de bem
No largo da aldeia!

Lavra e semeia
Frescura sem côr,
Colhida e sorvida,
Até ao segundo
Do sino da torre
Que bate ao que nasce,
Que bate ao que morre,
Mas bate sem parança
Nesta loucura de dança
Que é a Vida e a Morte



Nesta terra sem sorte.


Amália

Negro, o negrume
do xaile
Negro, o queixume
do fado
Negro, o azedume
do vinho...

Vermelho, o esplendor
da vida
Vermelho, o calor
da morte
Vermelho, o alvor
da eternidade...

Branca, a brancura
do rosto
Branca, a doçura
do ser
Branca, a prematura
partida...

Sem cor, descorada,
a saudade
Sem cor, deformada,
a imagem
Sem cor, enquistada,
a fama...

Rosa, rosada,
a ternura
Rosa, podada,
a tristeza...
Rosa, entraçada,
as raízes,

Que no povo deixou...


Casal Ventoso


Pirilampos em fogo
Na encosta do monte,
Almas em jogo...

Bem no fundo
Do fundo, furtivo,
Combóio açoite
Passando na noite...

Casal Ventoso,
Sem vento,
Tempestade, lamento,
Para os Homens Drogados.

Bonecos vazios,
De olhos vazados,
Espoliados da vida
Pelo homem do sonho
Que assim os abana
E assobia ao passar,
No ar de quem anda
O Mundo a salvar...

Traz pó, traz os charros.
Traz as ilusões
Até estas morrerem
Nas dores, contracções,
Quando a dose faltar.
É que o homem não fia
Quando passa e assobia
Nas vielas, ruelas,
Da cidade da Morte.

Já viciados,
Resistem,
Arrumam carros,
Subsistem,
Falta-lhes a droga,
Desistem...

E já nada anseiam,
Só a refeição tristonha
Da dose vergonha
A que se escravizaram.
Um momento,
E já sabem,
A overdose será
E terão,
O que agora,
Em visão,
A droga lhes dá:
Viagens, vertigem,
Luzes em vagas,
Doces, amargas,
Que os fazem correr.

Os cumes atingem...
Sabem-se doentes,
Sabem-se farrapos,
Sentem-se duendes
De deuses malvados.
E choram, entrementes,
Nos tristes barracos.

Chora a mãe
O feto drogado
Que treme, assustado,
A dose que vem
(Ser que será,
Ainda escondido,
Já abarca a sina
Que a droga lhe dá
Em cada seringa...)

Chora o homem que ama
A mulher que possui
Sabendo do risco
Que tal constitue...
Agulhas, quem sabe?,
Se infectadas ou não
E a sida espreita
Estertor, solidão,
Em cada injecção...

Casal Ventoso, poesia
Casal Ventoso, agonia,
De homens-fantoches,
Pirilampos fugazes
Luzindo no escuro,
Crianças-rapazes,
Homens como nós,
Que arrumam carros
Mas não arrumam as Vidas
Que sabem perdidas!

Casal Ventoso, ironia!

É que, na noite cerrada,
Ou no dia crescente,
Quem olha a vertente
Do monte onde vive
E vê o combóio, indolente,
No fundo, profundo,
Do monte em cascata
Chiando, inocente,
Acha lindo, acha belo!
Retrato-castelo
De ameias,
A meias com a lua
O céu a rasgar...
Quadro-sereno
Que apetece pintar...


Guerreiro Cepa


Era um homem do Minho
Adubado de broa
Regado de vinho.
Serrano de aspecto,
Mas com alma de artista
De cultura fadista
Autodidacta ferrenho.

Era um homem nortenho...

As faces vermelhas
Os olhos pequenos,
Se bem que serenos,
A boca em engelhas
De crítica dura
Meditada, madura...

E aquela bóina,
Não era de estróina
Ou de contestação
Era a pele que vestia
Um sinal que o fazia
Diferente...serrano...
Como do beirão o gabão
Ou do transmontano
Os paulitos da dança.

Era a herança
Dos pais, dos avós,
Ramos e nós
Da genealogia
Do homem que era.

Era ele e a terra
A terra que amava
Torrão, geração
Que a seu modo lavrava,
A História fazendo
Moldando, com calma,
Os estados de alma
De gente já morta,
De gente que importa
Não seja esquecida
No quadro da vida...

Morreu o Guerreiro
Nas lides da guerra
Deste grande braseiro
Caminha da serra...

Ficou o homem Cepa
Em cachos de versos
Poemas diversos
Como o que me deu
Naquela manhã...
Falava em Natal
Mas era, afinal,
Um forte labéu
Da crença cristâ
(Daquela que existe
E não devia existir
Aquela que insiste
Em tudo oprimir)

Ficou para sempre
A doçura que sente
A terra que o tapa
E que sabe quem é
Aquela nesga de Fé
Que ali se abandona...
É a senhora, é a dona
Do homem que foi
E do que será
Recordado, anotado,
Em crónicas soltas
De escritores-maestros
Ou de outros
Mais modestos,
Laras-verdes fiéis
Agrestes e rudes
Lembrando corcéis
Cavalgando na senda
Do rio sem açudes
Da Liberdade de Imprensa.

Que ninguém o acuse
De maldade ou rancor
Que a fealdade
Era nele um pendor
Físico, exterior,
Não tocando na alma
Como um peso que a espalma
Qual espartilho,
Qual fato,
Mal feito, já feito,
De um pronto a vestir...

Não, lá por não sorrir
Era um homem bom
D.Quixote no tom
De sonhos futuros
(Que, mal maduros,
Se desfazem, agora)
Sonhador de projectos,
Projectista de sonhos
Era mel a jorrar,
De uvas, medronhos,
Aguardente nortenha
Numa encosta de Arga,
Amêndoa amarga
(Sem Páscoa,
Colhida
No auge da vida)...
Centelha perdida
Na fogueira do monte
Lanhelas a arder...

Homem da terra
No seu seio se confunde
Mica ou esparto,
Quartzo, feldspato,
Com ela se funde
Rocha sedimentar
Escorre agora
Em larva escaldante
De novo larvar
No ventre da amante...
Voltará a nascer
Num pinheiro baixinho
Atarracado, cansado
Sob o peso dum ninho
Poisado no topo.
(Como a bóina, outrora,
Prenúncio da aurora)

Abrirá o caminho
Ao artista ou ao louco
Que, pouco a pouco,
Da morte se abeira
Subindo a ribeira
Do sol que se põe
Em fogo e em brasa
(Sinfonia que arrasa
Quem a compõe
No fim que se alcança)

E na desesperança
Do que resta do homem
Fica-nos o som
Triste e solitário
Dos vermes que o comem...
É negro de tom
Desolado o cenário
Quando tudo acabou...

Fica o vazio
Do lugar que deixou
Pedaço de um rio
Que algures já secou...

Descansa o poeta
Em terra minhota
E, da cova aberta,
Rescende o aroma
Do paio, do pão,
Daquela paixão
Por tudo e por todos...

Abençoados os loucos
Que viveram assim
E assim se finaram
Porque deles é o reino
Não do céu, mas da terra
Da terra que amaram
E em que, finalmente,
Em paz, se transformaram!


Jonnhy


Aquele menino tinha
Um olhar azul
Um olhar

Pestanas de floresta
De floresta ao luar

Remoinhos louros
Espetados, palhacinho

Do fundo do menino
Saíam sombras e luz
Lagos e rios
Sem mares
Sempre frios
Água e suspiros
Cascatas de peixes

Aquele menino tinha
Outro olhar
Igual ao seu
Outro olhar
Azul de breu
Sem água, sem luar
Olhar roubado
Olhar perdido

Quando por fim
O encontraram!


Deserto lunar

A paisagem
Que eu vejo
Escorre-me,
Em dor,
Nas faces.

São esqueletos,
Escunas,
Veleiros sem vela
Barcos de papel....
Ondas de espuma,
Cavadas procelas,
Subindo,
Descendo,
Em serras e vales
Enrugadas, morrendo...

E o negro macio...

Por dois buracos
Profundos, profundos,
Oceanos azuis
Jorrando cascatas
Morrendo riachos
Em gruta já morta.

E, no limite do quadro,
Aves estranhas
Em vôo de não mais
Triste, triste,
Como tudo o que vejo....

Em torno,
A moldura seca
Da secura total.

A paisagem que vejo
Não é Alentejo
Na sua aridez
De lugar nenhum,
Nem mesmo o deserto
De mortos, dejectos
No seu destino nu.



O que eu vejo
Ah! meu Deus,
Dentro do meu olhar,
É um menino africano
Morrendo de fome
Em deserto lunar...


Mãe

Mãe, que horror a solidão
De estar só
No meio da multidão.

Mãe, a dor de ninguém ter
Quando tudo se tem
Mãe, a dor de teres partido
E me deixares
Emocionalmente, sem abrigo…

A tua cova está calma
Está serena a tua alma…

E eu, mãe?

Que fazer neste tempo,
Neste espaço,
Onde tudo o que faço
É só desalento?

Que a brisa te traga.
Que possa a chuva
Sem estação, amarga,
Atingir-me no fundo,
No ponto onde, escuro,
O buraco, o vazio,
É mais duro,
Mais estranho,
Pois tudo devia ser bom
Ser eterno
Na paz que tu és
E me deste ao nascer…

Mas para mim tudo é nada
E choro e angustio-me
Sem rumo, sem futuro,
No presente irreal

Já não sei viver, mãe
A vida não é
O que é para todos…
É algo sem cor
Esfumado de dor
E não passa daí...

Não sei estar só
Não quero arrastar
A solidão como o pó
Que a brisa levanta
Aqui e ali
E logo o acama
Aqui e ali…

Manda-me o sol, mãe,
Da alegria da vida,
Do sorriso do mar,
Da harmonia das flores,
Do sorriso de alguém,
Do calor do corpo
E da alma também
Total, sem reservas…

E não estes restos
Que a vida me dá
Amargos, duros,
Que não consigo tragar…

Tudo está mal
Tudo se desfaz
E contudo era fácil
O céu neste mundo.
Bastava a harmonia
De um outro ser
Como tu, mãe,
Que me fizesse viver.

E ao voltar a nascer
Veria o belo
Veria Deus
E a vida seria
O que deve ser:
Brandos gestos,
Doces palavras
Em cada dia…

E já não teria
De a morte chamar
A cada momento.

Porque a morte viria
No dia, na hora,
Em que tivesse que vir…
E encontrar-me-ia
Em paz, harmonia,
Com Deus e os homens
Saciada de vida
Pronta a partir…

Como tu, mãe
Naquele dia!…


Partida

É o disco que roda
É a cama que range
E sou eu...
Eu por quem o disco roda
E a cama range
Eu...só...

Partiste,
É dura a partida...,
Mas há música aqui!

Chorei, sofri,
Mas há risos lá fora...

Afinal, partiste?
Ou permaneces ainda
Dentro de mim
Neste momento?

Terás partido?

O disco roda
A cama range
E tu pulsas vibrante
No meu pensamento


Quarto Onze

A menina sorriu!
Olhos fechados,
Palidez de luar,
Mas, nos lábios selados,
A vida a voltar.

Um suspiro, de leve,
O peito lhe ergueu,
A menina gemeu!

Em todo o Hospital
Um grito ecoou
Milagre...Milagre...
A menina, afinal,
Não morreu, regressou.

Lágrimas rebeldes
Saltaram ao eixo
Nas rugas, nas peles,
Dos rostos cépticos
Dos médicos...
Aquele desfecho
Não era deles,
Não era humano.
No seu saber,
Não havia, não podia haver,
Qualquer esperança
Para aquela criança.

O pai, homem do Mundo,
E por tal descrente,
Num breve segundo,
Admitiu, reverente,
A oferta, sem preço,
Do Menino de gesso
No Presépio sem vida...
A mãe, piedosa,
De Igreja vivida
Considerou, desdenhosa,
Todo aquele vai-vém...

Ela sabia bem
Porque a filha vivera;
Pois se era Natal...
Por isso acontecera.
Uma menina inocente
Naquela noite,
Não morreria,
Deus não deixaria...

Natal...Maravilha...
Cochicham as paredes,
Na sua brancura,
O milagre da cura...

Maravilha...Natal...
Alegria Universal!

Só no quarto onze
Num silêncio de bronze,
Uma mulher dorida,
Mulher da vida,
Solitária, amargurada, Olhando a face sem côr
Da filha perdida,
No auge da dor,
Questionava, revoltada,
Porquê, na lotaria de Deus,
Não fora ela a contemplada...


Sida

É fim do dia,
É noite a chegar,
Trevas e sombras,
Salpicos de ondas
De um mar de agonia...

Em traço escuro,
Inflexivel e duro,
Jazes,agora!
Não como outrora...

Eras mármore,
Aurora de grego
Sem estátua.
E da tua árvore,
Madura,
Jorrava, pujante,
A onda escaldante
Da vida futura.
Ah! Meu Amor
E se frutos não deu
Foi, tão sómente,
Porque a Natureza é racista
E eu não sou alquimista...

Mas como sabias
Tudo o que ansiava,
Sem mesmo pedir.
Como o teu pensamento
Me penetrava,lento,
Como onda a subir.
Como voavas para mim
Quando, num só suspiro,
Chamava por ti.
Como meu ser acalmavas
Quando o povo cuspia
E me murmuravas:
“Deixa-os
Nada se perdeu
Somos tu e eu
E Deus que não escarra,
Nem suja
(Amarra segura
Em tarde de Verão!)”

Tardes de Verão
Brisa sem som,
Trocando emoções,
Tocando piano,
Mudando de tom...
E os serões,
Nos Invernos sem fim
Teclado, marfim,
Pauta, canções,
Até ser manhã
Do dia, do ano,
Do Sempre...
E os medos a dois,
E os segredos...
E depois os risos,
O choro,
Enleios, namoro...

Ah! Deus Cristo,
Que escorres
Na parede,
Dá-me a beber fel
Que tenho sede!

Tudo se foi.
A ternura, o sorriso,
Lambendo-te a boca
O rosto suave,
Rio bravo sem escolhos
Em que os olhos,
Côr louca, celeste,
Se riam.
(Desse azul sem fim
Tudo me deste...)
A alvura das mãos,
Aves sem asas
Traçando destinos.
Dedos finos, escultura,
Escultores do meu corpo,
Loucura!

Mas agora, és sôpro,
De ti nada resta
Como corpo.
(Só a memória dele
Na minha dor...)

Ah! Amor
Já te não vejo...
Está tudo coberto
De terra, de morte.
Mas o desejo
Que a alma encerra
é mais forte
E revejo teu ser,
Mesmo sem ver,
Coberto de lama
De chuva mais terra...

Tratei-te, doente!

Docemente,
Teus pôdres sarei.
E porque lavei
Os rebentos
Cobertos de pús,
Porque limpei
Os escarros
Que davas à luz,
No estertor de os parir,
Porque beijei
Tuas chagas,
Amor,
Não hás-de partir.
Não te hei-de perder
Na lama,
Na chuva,
Na cova a arder,
Pois mil rosas abri
Na cova de ti,
Negra e vermelha
Terra mais água
Rosas e mágoa...

O que disseram, então,
Não ouvi.
Só escutava, solidão,
O murmúrio que a medo
Surdina, segredo,
De ti me ficava...
Um som que é só meu
Pois dentro do peito
Fez ninho, nasceu...
É o som do que foi
A vida em comum
Quando eramos um!
Partiste, saudade,
E o quebrado que sou
Tende à unidade
Para que Deus nos criou...
Proscrito, maldito,
Do mundo serei
Mas, sem medo,
Amarei,
Como Deus me ensinou!
Do modo como Ele
Meu barro moldou...

E os outros que gritem,
Pedras atirem,
Se revolvam sem dó.
Porque eu sou criatura
Não um excremento
Contra-natura.
Ele sabe-o bem
Porque me criou
E não questionou
A obra final...

Por isso morreste
De sorriso no rosto
Como um anjo qualquer...
Fresco de Miguel
Ângelo de nome
Homem como tu
Pintor de capelas
Amante do belo...
Do belo que é de Deus
Universal, sem barreiras,
De sexo ou de côr
O belo dum poeta,
O belo dum Criador!

(O teu corpo de homem
No caixão
E o meu corpo de homem
Morrendo de paixão...)

Um anel no teu rosto,
Louro anel de mil sedas,
Vinho novo, desgosto,
Sinal de mil perdas.
Meigo cabelo
Trigo enleado
Cevada madura
Seara...charrua...

Doce figura
Terna e imensa
Pudera eu morrer
Contigo também
Só tu...eu...
E mais ninguém...

Não tinhas defesas
Disseram
E impuseram
Total solidão,
Abstenção,
Mil incertezas...

Pois com mil ódios me deito
Com mil rezas no peito.
Os ódios aceito
As rezas aos sábios
Endosso, maldoso,
De riso nos lábios...
Na noite de vidro
Menino medroso,
Ourives perdido,
Lapido pedras em bruto...
Suo e arquejo
Mas nada dá fruto!

Só o imenso nada
De nada querer
Senão a morte.
E, com um pouco de sorte
Reencontrar-te, então,
Num outro mundo,
Numa outra dimensão...
Ou talvez, tão sòmente,
Escorrendo doente
Num quarto isolado
Com um Cristo enfezado
Na parede a gemer,
E tudo outra vez
Voltar a acontecer...
E o destino cumprir...
E eu te ajudar a morrer
De novo...

E lá fora o povo
E cá dentro só nós
Tu, eu e Deus
E esta longa, longa agonia
De te dizer adeus
Ao fim deste dia...


QUARTO CRESCENTE


Meio dia

A luz que escorre
Ao meio-dia,
Na praia,
Inebria...

Espalha-se,
Sente-se
Nas pedras em fila,
Cria
Recria
Sombras cinzentas,
Em manchas...

Um cão
Vagabundo
E a cigana...

E, mais ao fundo,
A banca de alguém
Que vende,
Que engana

A luz que desenha
As sombras no chão,
Adoça-se
Adensa-se,
Agarra-se às pedras
Na hora que passa...

Meio dia
Minutos,
Segundos cerrados
Em relógio redondo!

A cigana e o cão,
O homem que engana,
E esta tarde
Que avança
Me envelhece,
E me encanta.

Estou viva ao meio dia
Deste dia que escorre
A luz do meu sonho...
De que mais
Que sinais
Preciso eu então?


Daniel

Olhar de avelã,
Olhar que me olha
Em cada manhã,
Olhar que me diz
Bom-dia mamã...
Olhar de petiz
Em corpo de alguém

Olhar que também
De homem se trata,
Mistura de ouro
Com toque de lata,
Meu olhar,
Meu tesouro,
Meu menino de prata...

Castanho, veludo,
Abelha de mel
Olhar que diz tudo
Arco-íris, pastel...

Óleo de pincel
Em quadro já feito...
Olhar tão perfeito
Que julgo divino!...

Mas não...
É, simplesmente,
Um olhar de menino
Em corpo de gente...


Há um lugar vazio!

Há um lugar vazio!
Mas a minha mãe não morreu…
Foi levada ao Céu
Por quatro anjos
Robin, Paulo,
David e Luís.

Há um vento frio!
Mas a minha mãe não morreu…
Desfez-se em rosas
Numa campa rasa…


Leonor

Riso desfeito,
Em covinhas,
No amor-perfeito
Do rosto.

Cabelo em chama,
Fogo posto
Ouro, derrama.

Em linhas
Graciosas
Brota a silhueta,
Aroma de rosas
Lagarta, borboleta...

E por dentro,
E por fora,
No centro,
Na hora,
A alma está,
Lá,
Onde deve,
Tornando, num ser,
A figura a nascer,
Que o poema descreve
Em vão!

Só conhecendo,
Só tendo
A alma na mão,
Se consegue sentir
O principal:
O coração...
O amor...
Aquilo que a faz,
Afinal,
Ser Leonor...

Flor do meu jardim,
Sem estação do ano,
O Outono a traz
Em férias com fim
À ordem,
Sem juros...

E fica a saudade
E ficam os muros
Das fronteiras,
O longe que invade
Sementeiras, sem fruto,
Dos espaços do mundo
Sem fim...
Mas fica Leonor
Coração...Amor...
Essência de mim!

Há-de voltar
Inverno,outra vez,
Menino Jesus,
Natal português...

E de novo verei
Covinhas nas faces...
E de novo terei
Em noite bem fria
Jesus...Maria...
Aroma de flor,
Maria Leonor!...


Carmos…há muitas

Carmos…há muitas
Maria…uma só…

Não chora, não cora
Nada em vidros
Tenham dó!

É vê-la, na Micro,
De artes na mão
Água e sabão.

Tanta placa
De cultura
Tanta cultura
Meu Deus…
Mestrandos
E doutorandos
Coliformes,
Salmonelas
E listerias…
Às bolinhas amarelas…

Tudo afoga
Tudo afaga
Autoclave
Bem fechada,
Solta o fumo
Salta a crise
Entra na dança
A Segurança…

Mas a Carmo
Que é Maria
Ganha a luta
Ao fim-do-dia.

Pouca-terra
Pouca-terra

Vai pr´a casa
Já sossega
Beija o neto,
Trata a roupa
Faz comida.

E à noite

Pouca noite
Pouca noite

A labuta
Enfim esquecida,
(Tenham dó…)
Lava a louça,
Artes na mão
Água e sabão.


Menina da escola

Menina da escola
Que levas guardado
Na tua sacola?

Cadernos, livros
Ou antes sorrisos?

Borrachas, canetas,
Lápis de côr
Ou um ramo de flores
Lindas borboletas?

Menina da escola
Que levas fechado
No teu pensamento?

Contas, leitura
Ou toda a ternura
Dum dia de Verão?

Desenhos, ditados,
Trabalhos de mão?
Ou a calma mornaça
Do dia que passa?

Menina da escola
Que levas a bailar
No teu breve olhar?
O azul dos céus
Ou sòmente...Deus?

Tu levas menina
E não sabes não
Porque és pequenina
Mas eu digo-te então:
-Levas a Vida
Fechada na mão!...


Chuva

Levava um guarda-chuva!

Estava a chover
E eu não gosto,
Faz-me sofrer!

Andava...

Rua estreita e escura
De feição dura
E modos agrestes,
Tão longa...
Aqui e além,
Flores silvestres
Aroma, doçura,
E tu também...

É assim,
Tu, meu amor,
Perduras ainda
Nos dias chuvosos
Em mim...

E sobem e trepam
Nas noites, na chuva,
Soluços raivosos
Anseios perdidos
Ao acaso da rua.

Estava a chover!

Só para não sofrer
Fechei o guarda-chuva
E de olhos cerrados
Afastei-te de mim
Para a chuva parar...


Lisboa

Eu sou Lisboa,
Prostituta,
Cacilheiro
Girando no rio…
Eu sou o fio
Que une o País
Em veia-raiz

Eu sou a Carreira
Autocarros-bandeira
Do traçado das ruas

E se parecem nuas
Que engano tamanho
Há vidas...
Fervilham
Em cada varão
Das grades-janelas.

Sou o som das gamelas
O cheiro a comida
As tascas, a vida
Que escorre no chão.
Cidade em colinas
São sete castelos
Que em serpentinas
Cadeia sem elos
Escorregam, patinam…

Sou varinas brejeiras
Que passam Apregoando ligeiras;
E as sardinheiras
Que nas varandas
Se enlaçam
Nas casas bairristas

Entrando em Alfama
Da fama que tem
Saída da Graça
Da graça também,

A Mouraria!

Que dela diria?
O fado, a facada,
Ou o correr do dia?



Plantada no verde
Da colina calma
Lisboa se perde,
Adormece,
Se acalma...

Ao cair do sol,
Ao subir da lua,
Cai, triste e mole,
No escuro da rua,
A vida nocturna.

Acalma-se a turba
Fervilhante, da luz.
A noite que avança
Só a sombras conduz.
É ponta de lança
Do lento cortejo
Da gente esquecida...

A mulher vendida
O homem do Tejo
Do Cais do Sodré
Homem-bebida
Mal se tendo de pé...

Cidade-Lisboa
Ninguém vive à toa
Cercada de ti

Os elécticos são
Lagartas que vão
Comendo os carris
Para cima,
P´ra baixo,
Como uma lima
Da unha, o verniz.

Come a folha,
Graça acima,
Cospe a rolha,
Salta a espuma,
Desce, depois,
Como carro de bois.
Travões apertados
Velas de escuna



Resfolega, tilinta,

Espanta as figuras
Recortes-papel
Em paragens escuras…

Eu sou Lisboa
Telhado do Mundo…

E que profundo
É o seu respirar
Em telhas, sem tecto…

Eu sou Lisboa
E sempre serei
Ângulo recto,
Suspiro, murmúrio
Até a geometria
Um dia,
Em caos se tornar
E, de Lisboa,
Já nada restar...


Opção

Se eu tivesse de morrer
Agora, àmanhã

Ou talvez ontem...

Se eu tivesse de viver
Agora, àmanhã
Ou talvez ontem,
Como se morta estivesse...

Como seria?

Viver ou morrer
O que faria?

A escolha era minha
Pesar, repesar
Valores e vivências
Amores, emoções
Dia a dia, eminências...

Que balança usaria?
Qual seria a de usar?
A da vida ou a da morte
Para qual me virar...

Olhando para trás
Momentos já houve
Em que a da morte vencia

Mas hoje em dia...
Há o calor no meu ombro
Que não me deixaria.

O calor húmido e quente
Do bafo dormente
Que a boca dos netos,
Deixa,
Mesmo antes do momento
Em que o sono, docemente,
A cabeça faz render...

A vida, pois, é a balança,
A vida é a dança
Que as crianças embalam
Quando tudo já foi...

E as memórias se calam,
E o mundo renasce,
No calor do meu ombro
Onde os netos se acalmam.


Sandra

Olhos morenos,
Redondos, pequenos,
Em rosto ancorados,
Marina espelhada
De barcos, de nada...

São fundos buracos
Sem fundo...
São jóias,
São bóias,
De iates
Bem presos
No Cabo do Mundo!

São velas,
São belas,
O vento a levar...
Tremulam,
Palpitam,
Com asas de mar...
São vidas que ficam,
São mortes que partem,
No cabo do mundo
São toros que ardem!...


Segundo Milénio

Segundo Milénio
Segundo Jesus Cristo!…

Cristo morreu
Milénio já é…
Anos e anos
De gentes,
De Mundos…

Milénio dos mortos,
Dos vivos perdidos,
Dos anos passados.

De todos os cosmos,
Meu cosmos pesei.
Por meu, e por isso,
De miasmas, de mim,
Atrás, meio ou fim
Aquilo que sou…

Dos mortos vividos,
Meus mortos já são.

Pai, mãe
Já passados
Que julgava só meus
(mais que meus
eram dele!)
Incenso e mirra
Queimados em mim,
Ventres fecundos
Origem e fim…

E dos mortos não meus,
Irmã que era minha
(embora só dele
no seu Ego-Universo)
Doçura não gémea,
Mas doce amargura
De tão nova no ir…



E tias e primos
Avós e avôs,
Fantasmas passados
(só meus, aí sim,
pois por ele enjeitados)
Pedaços do elo
Que à vida me liga
No mestre novelo
Tecido na teia
De algo sem forma
Que vai e retorna
E me cria e recria…

Por isso eu existo
Nos mortos
Que a Morte
Levou já consigo.

Apelo de longe
Mais perto,
Mais junto,
Em dia após dia

E mesmo que ele
No seu “tenho, tenho”
Proclame que Cristo
Voltou e existe,
Em Pedra-Maria,
Eu fico com os meus
Mortos e vivos
Até mortos serem
E eu já não ser…

E o Cristo será,
Em milénios futuros,
O Cristo que então
Os milénios gerou.
No princípio era o Verbo
No primeiro milénio
Segundo o Senhor
No ano de tal…
No princípio de tudo!


Timor

Eu compreendo
O povo de Timor...

Só não entendo
Todo este clamor
Mundial,
Infernal,
Que a nada conduz
Senão ao petróleo...

E o Timorense,
É à luz do gasóleo
Que treme,
Que geme
O horror de ser morto
A angústia da vida
Sem rumo, nem porto
De abrigo, guarida...

E o Timorense
Não quer a riqueza,
Quer largar a tristeza
De não ter liberdade
De ser, de existir,
De poder decidir
Se quer ir ou ficar
Viver ou morrer...

Ser ele, o maubere,
A poder dizer
Aquilo que quer
Para si, para o todo,
É a vontade do povo!

O petróleo não conta
É apenas a gota
Que escorre nos dedos,
Cheios de segredos,
Dos Homens do Mundo.

Por isso se juntam,
Por isso se afundam
Em falsas notícias
De carácter profundo:
Sevícias,
Chacinas,
É preciso actuar
Timor “capital”
É preciso salvar!

O homem maubere
Que chora,
Que espera
Ser livre, ora,
Isso em nada altera
Os bolsos da gente!....

É isso que sente
O Mundo que grita
A revolta em Timor...
Fala de Amor
Bandeiras agita
Mas o Homem,
O cerne,
Continua esquecido.

Venham, tomem,
Levem tudo, podem,
Mas deixem-nos viver
A eles, como querem,
Sem lamas a escurecer
Horizontes desertos,
Mas livres, libertos
De serem pobres ou não,
De serem, afinal,
Timorenses com pão
Do próprio suor.
É isso que sonham
É por isso que morrem,
Cartilha tristonha
Que sabem de cor.

Ser livre, mais nada,
É a riqueza que quer
O povo maubere...
Respeitem a raça
E a sua nobreza
Lutemos com ele
A luta que traça
E não a demagogia
Que, no dia a dia,
Fala a Imprensa

E então, sim,
entraremos na História
Com honra, com glória,
Daremos, enfim,
O que Timor nos espera
Um abraço, sem juro
A pagar no futuro;
E seremos portugueses
A lutar por Timor
Sem outros interesses...


LUA CHEIA


Av. Lourenço Peixinho

Havia um mar de gente
Na Avenida.
E ondas nas ruas
Como uma serpente
Que corria, comprida,
Evitando a estação
(Como Eva e Adão
Após o pecado...)

Serpente mil olhos
De mil corações
De corpo molhado
Girava, curvava,
Pagava a prestações
A conta da Vida.

Era um rio a correr...
Começava na Ria
A foz, o combóio,
Sempre a descer
Aquele promontório
Calçado de carros,
Pejado de escarros
Nos sujos passeios,

Era um mar guloso
Tocando-lhe os seios,
Mar impetuoso
Carícias de sal
De morna saliva,
Onda lasciva
De gente que passa
De calma, tão escassa,
Agitada, febril,
Nunca abrandando
Caminho, carril,
Serpente ondulando.

A estação é o fim,
A Ria começa
E não há quem impeça
Que todo este mundo
Se meta por mim
Me possua, me doa,
No ventre rotundo...
Na Avenida ecoa
Meu grito, meu esgar...

Fechei a janela
Disse adeus ao Mar,
Fui ver a panela,
Sem poesia,
A fazer o jantar...
E voltou a magia
Calma, rotineira,
Do meu dia-a-dia...


Deus…

Fora eu deus
E criava um mundo
Sem palavras
Nem fundo,
Silêncio infindo
Sem sons
Sem vida
Morto como tu…

Fora eu deus
E diria adeus
Ao mundo onde vivo.
Sem pena,
Dele me soltaria
Até à eternidade…

Aí, então, seria
O que sempre,
Em vida, quis,
Luz…muita luz
De dia ou de noite
Para sempre,
Desde sempre,
Em feixe ou em ponto.

Em contraponto
O luar…
Birra de estrela,
Centelha de mar,
Continente atrevido
Africano…perdido
Na fome…na seca
Muçulmano vendido
Virado para Meca

Fora eu deus
E morreria,
Sem medo,
Ao nascer do dia!


Eram duas senhoras...

Eram duas senhoras,
Senhoras da “micro”...

Amigas do peito
Rumos diversos
Tiveram na vida.
Nem podem os versos,
Aqui rabiscados,
Traçar semelhanças.

Contas pingentes
Do mesmo colar,
Gotas diferentes
De um mesmo Mar...

Vejamos senão...

Lourdinhas amiga
A micro está contigo!
Tudo bem
E a chefinha?
A chefinha está comigo?
Só quero a chefinha
A chefinha e mais ninguém...
E então qual o papel
Do ilustre figurão
Companheiro de percurso?

Lourdinhas rebelde
Comanda o “comando”
António-menino.
Cabelo rapado
Amante estafado!

E então Fernão Ferro
Senhor?
Porque lhe dais tanta dor
Porque padece ela assim?
Tardes a fio
Ao Sol e ao frio

Com o esposo adorado.
(mas que safado
que faço eu aqui?)
Macau ou Madeira,
Isso sim, Antoninho,
Que de um lado voa o Sandro
De outro lado voa a filha
E também o Sahibinho....

Vejamos senão...

Madalena mãezinha
Fada-Madrinha
Da sua Soninha,
Gargalhada ambulante
Histamina actuante
No colega-irmão
Da acreditação.
(o tal de engenheiro
alérgico ao riso,
carregado de siso...)

Senhora de anéis
Reboluda já era,
Virou manequim.
Pediu emprestada,
À Lourdes amiga
A roupa vermelha
Chocante e chocada
Interior e privada
Escassa, atrevida,
“Strip-tease” dançou
Pró Carlinhos
Que, sortudo,
Deveras gostou!

E para o provar
Outra (Da) gorda arranjou
Para tudo ao início
De novo voltar,
E o ciclo fechar...

Uma coisa em comum
No entanto fizeram
As duas senhoras.

No meio ambiente
Do seu gabinete
Forjaram tratados
Leis, arrazoados,
Que tramaram, e bem,
Os vibrios e virus
E os “afins” também.

Foi tal o ardor
Posto na luta
Que os bichos pequenos
(os filhos da ...)
Se meteram em greve.
E para elas, em breve,
O Lab fechou
Por falta de assunto,
Levando as senhoras,
Reformadas da guerra,
A concluirem, em paz,
Que a reforma, afinal,
É o resultado banal
Daquilo que se faz...


Há chuva meu amor...

Há chuva meu amor,
Repara!
Há chuva na rua...

E que importa,
Se a chuva cai
Só onde não estamos,
Na rua
Onde passamos,
No céu
Que não olhamos,
Na gente,
Que não amamos...

É só lá,
Onde não estamos,
Que ela está...

Há chuva, meu amor!


Célula

Em duas me divido
E me desdobro…
Em novas emoções
Me recordo

Até ao infinito…

Princípio de mim
Até fim me nascer
Eu…eu,
Sonhando,
Incipiente, mas eu.

Tal como a primeira,
Já não inteira,
Mas fracção vivendo
Pulsando o Universo
De existir

Até ao infinito…

Sou a partida
Do ser que já sou,
Palpitante
Eco que ecoou
Desde o dia um…
E me desdobro
Em vida
Em pleno sentir
Amando…
Sofrendo…

Até ao infinito…

Sou a primeira
De todas as outras
A mais
A principal
A fonte nascente…

E a água será
Rio sem retorno
Deste meu sonho…
Corrente sem volta…
A vida surgiu,
A vida brotou,
Eu sou a primeira
Daquilo que sou…

Nasço e nasci
Presente,
Permanente,
Desde que apareci…

Até ao infinito…

E multiplico
A herança
Da dança
Em que me envolvi…

Sou eu,
Célula escolhida,
Menina dos olhos
Do que serei

E não perdoarei
Que me tolham
O passo incerto
O gesto,
O sorriso,
Deste mundo imenso
Onde começo
E me penso…
Medito e anseio
O futuro que é meu…

Até ao infinito…

Bandeiras
Trombetas
Falsos profetas…
Não existo
Matam-me
Em nome do Homem.

Engano, desengano…
Eu sou o Homem
Eu sou todo
O que vive ou viveu…
Pois sou a primeira
E sempre serei
De mim ou de alguém

Até ao infinito…


Meu filho, meu doce filho...

Eu vi os anjos
Que o Senhor mandou
Em espiral de luz…

Meu filho
Meu doce filho…

Cabelo–milho
Olhos de mar
Esqueleto-menino
Jogo do mal
Roupa de Lua
E banda desenhada…

Rosto no chão
Não deste por ele.
Espirito Santo cigano
Noite estrelada
Fogueira-semente

Mas eu vi
Vi sua face ardente
Em ti se fundir
E a teu lado ficar.

Meu filho
Meu doce filho…

Mãos centradas
Ungidas-sagradas
Não eram tuas

Mãos-criança
Relógio-Natal
A morte a marcar
A vida-anemia
Tuas mãos a lavrar.
Menina-morta
Menina-ninguém
Tua face tocou
E a teu lado ficou.

E não viste,
Também,
Mas eu vi



Meu filho
Meu doce filho…

Cadeiras de rodas
De mortos e vivos
De gente engelhada
Enrolada, em mola,
Que salta e explode
Em olhos brilhantes,
Sorrisos infantes
Mentes espantosas.



Seus braços torcidos
Em ti se enrolaram
De estaca pegaram.

E eu vi ainda,

Meu filho
Meu doce filho…

Em bando vieram,
Pai-Nosso inocente.
Asas pendentes,
Em pausa de vôo,
Mãos dadas-chilreio
Passarada-vitral
Te abraçaram
A teu lado pousaram.

Dois anjos negrinhos
Africa-olhos-sorriso
De espanto infinito
Te beijaram as mãos…
Chuvas-calor
Florestas-torpor
Pôr-de-sol em braseira

Eu vi-os
Aos anjos
Que o Senhor mandou
Em poalha de luz…

Já eleito, sorrias,
Teu sorriso-menino



Como se fosses um deles…

Então tua mãe
Mãe de todos
Os anjos presentes,
Em silêncio,
Chorou.

E os anjos do Senhor
Se retiraram…

Meu filho
Meu doce filho…

Mas o Senhor ficou!


Negrinho

Um olhar!
Um sorriso!

O feitiço
Da tarde escaldante,
Amante,
O arbusto
A arfar
E o mestiço...

Moreno e fugaz
(tão pequeno
tão moreno)
A brincar,
Na própria terra
Se desfaz.

Tudo tem vida
A serra
O olhar
E o negrinho
A saltar...


Porto

Pontes nervosas
Em fundo de mar
Bordado de rio...
Cimento e aço
Gaivotas medrosas
Simetria que abraço...

Barcos, baixios,
Pintura divina,
Tudo se mexe
Sem nada mudar!
Pintura rupestre
Que deve ficar
Para de aqui a mil anos...

Há que impedir
Que ventos profanos
De Alcácer-Quibir
Destruam a tarde
Tal como a vejo
Assim, sem alarde,
Num simples adejo
De asas, de sonhos...

São sempre medonhos
Os monstros do Homem
Que crescem, que sorvem,
Paisagens inteiras...

E acabam-se
As que são verdadeiras,
As que sempre estiveram
Presentes, nas águas,
Nas encostas, nas côres,
Verdes, castanhos,
Geometria das dores
Da Terra ao nascer.

Desígnios tamanhos
Não há que perder...
É o Artista-Mor,
O grande pintor,
Em originais
Arco-íris a rodos
Sem montras,
Sem guardas,
Ali, para todos,
Sem distinção
De classe ou condição.

Povo, povo meu
Que lavas no rio
Bordado de céu...

Eu vi o Museu
Repleto de belo
Pintado por Deus.
Fechei o olhar
Cerrei o portão,
Guardei o tesouro
Bem dentro,
No meu coração...

Aí está seguro!
O Homem que mude
O que pode mudar
Pois dentro de mim
Não pode ele entrar.

A pintura, a cidade,
Tal como surgiu
Naquele fim de tarde
Por cima do Rio
Não mais mudará.
Está inscrita no olhar,
Brisa anelar
Que faz parte de mim
Até em mim se tornar.

Em pó ou em cinzas
Daqui por mil anos
Ainda será!...


Senhor

Se um dia chegares ao Céu,
Árvore esguia do caminho,
Não te esqueças que te amei
Parada no meio da estrada...
E cumprimenta o Senhor
E diz-lhe que também quero
Trepar por ti, docemente,
Para com Ele falar,
Nem que seja um só momento.


Terra

Na minha terra
As casas nascem,
Pela manhã,
Envoltas em bruma...
E, nas montanhas,
Em torno,
Ardem pinheiros
No Verão...
Crescem o vinho
E o pão
Em socalcos no chão,
Ou em seara.

Na minha terra,
Verde e garrida,
Aparece vida...
E não há serra
Que se não encha
De gado, pastores,
Terra de cores,
Terra que é minha...

Esta, onde estou,
É terra de alguém
Que a ama também.
É verde, castanha,
Palpita, germina,
É terra
Mas não como a minha....

O pão que esta dá
É hóstia emprestada
Não o trigo sadio
Do campo que vejo
Da janela empenada
Lá, onde moro!

Por esta terra não morro
Mas pela minha,
Não sei se o farei
Um dia!
Comerá meu corpo
Será parte de si,
Da terra onde nasci....

Serei casa a nascer
Nas brumas, na manhã,

E tudo se encontrará
O fim e o principio
O que é e já não é.
Porque a minha terra
É só uma
É aquela,
E não a troco por nenhuma...


Viver do sonho

Viver do sonho,
Desta alegria
Em que me ponho,
Eu só,
E que me guia!...

Não tenhas dó
Vale mais sonhar,
Embora pouco,
Eternamente,
Que tudo encarar,
Friamente,
E ficar louco...


QUARTO MINGUANTE


A noite das noites

Aquela era
A noite das noites…

Era o sonho
Era o vulcão
A paixão que um dia
Um Deus me ofertara!

Mas ele cismou
Que oferta não era
E rezou, negociou,
Com medo do deus
Feirante, cigano…

E porque um deus
Contrariado,
Se vinga,
Com medo rezei,
Negociei!

Foi assim,
Que na noite das noites
Me prostitui.
Agnus Dei,
Chaga de Amor,
Fiz amor como pediu…
Sexo a três
Ele, Deus e eu

Só porque Deus me cobrou!

Em pensamento voei
Até à ilha sombria
Onde, de premeio, sei,
Nada, nada, se meteu
Pai nosso ou avé maria!
O próprio Deus se rendeu…

Madeira, céu, inferno,
Trinta anos, trinta vidas,
Eternidade só minha…
Malditas horas vividas
Quando ainda nada tinha
E o desejo me queimava…

Só porque Deus me atrasou
(Aquele Deus que eu amava)
Perdi a noite das noites
Naquele jogo de cartas
Há trinta anos jogado,
E em que tudo se jogou…


Bordéus

Aquele café
Tinha ritmo de “blue”.

Talvez porque a chuva,
Ali ao pé,
Que caía na mesa,
Fosse azul,
Como o é a tristeza
Das folhas caídas
Em tardes de Outono...

O candeeiro tremia
No tampo, no Tempo,
No céu cinzento,
De pernas para o ar
Nas nuvens a dar
Sensação de leveza
Àquela mesa
Deserta,
Esquecida,
Lá fora

Numa caixa do canto
A música pedida
Tinha encanto,
Era querida,
Lembrava a alguém
Momentos vividos
Por certo...
O sorriso aberto
Os olhos perdidos
Mostravam-no bem...

Mas não era “blue”
Era valsa
Passada,
Dançada,
Ilusão falsa
No olhar do velho
Que a pediu...

No entanto,
Sabia-me diferente.
(É o ritmo que sente
Cada um
Que faz encanto,
Que faz magia,
Da música vazia....)

Nas paredes de vidro
Rastejantes, sedosas,
Verdes e rosas,
Em cacho florido,
As plantas...
Dão nome ao café
Retalhos de mantas
Retalhos de fé
De loucas, de santas,
Em coros de Sé
Com motes profanos...

Deslizam os anos,
Escorrem os tons
No fumo do ar...
Cigarro a morrer
Num sopro,
Num esgar,
No desgaste de um corpo.

Solidão
Ah! Solidão
Espirrando da gente
Espalhando no chão
Suspiros e medos...
Fica o desejo
Sentido, demente,
De um beijo,
De uns dedos
No cabelo a lavrar
De uns lábios,
Bem quentes,
Em carícias ardentes
E em verbo de amar...
Conjugá-lo com outro
(Ah! Solidão)
Permanecer absorto
Na gramática louca...
Na boca,
O sabor, a doçura,
Daquilo que chega
Após tanta procura.

Tudo se enquadrava
Na chuva, no dia
Espelhado na mesa...
O candeeiro oscilava
Gerando incerteza
No tampo cinzento,
Paisagem tempo
Morte ou Vida.

Cada um ouve
O que quer
Na música pedida
Por um velho Qualquer...


Ausência

A tua ausência dói,
Quando não estás...

Sonho com teu corpo
Quente, junto ao meu,
Com carícias,
Com ternura,
Com o sorriso
Que tão bem conheço,
E penso:
“Não estás!”

Melancolia de ti,
Do apoio ao fim do dia
Do gesto que deves,
(Quando deves)
E me consola...

Doçura da companhia
Somos um, somos o mesmo
E eu cuido mais,
E tu cuidas mais,
De sermos como queriamos ser,
Antigamente,
Na época do independente.

Não telefonas, não pudeste
Não me dizes algo doce
É a distância...

E sonho com o dia
Em que a ausência,
Como tudo num ciclo,
Acabará...

Acaba e exulto
Rejubilo, volto à Vida,
Sinto ânimo,
Sinto sangue
Que corre por toda mim.

Contudo, nada é assim...
Estás presente
És meu amigo,
Mas continuas ausente!
Não há carícias, ternura,
Não há o gesto que falta
Não há a vida em comum
Em que dois se tornam um...

Vives só para ti mesmo
Ensimesmado, tenesmo
De algum ponto qualquer
No teu campo emocional.

Então morro de verdade
Porque a ausência,
Na ausência,
Faz sofrer mas é normal...

Agora a ausência
Que se sente, dolorosa,
Na presença do ausente,
Essa é farsa,
Essa mente,
Essa endoidece,
Mata tudo à sua frente!

O mesmo mutismo,
A mesma apatia,
A mesma ausência
Embora a meu lado.

Sonhos, optimismo?
Não há alegria,
Não há nada pela frente?
São tempos difíceis?
Pois sorramos ao dia
Que ainda vivemos
Nem tudo perdemos
Temo-nos a nós,
Não vês?!...


Cansaço

Olho o meu amigo
De sorriso sensual
E porque a democracia
Da mente, é total,
Dispo-o lentamente
Religiosamente!

Os ombros, os braços,
Músculos e traços
De artista concebidos.
Peito macio
Floresta tropical
Nádegas perfeitas,
No princípio
E no final…
Sulco a pincel
Em tela a carvão
Ou aguarela.
O falo esponjoso
Centrado, funcional,
De violino afinado
À primeira nota
De cada sinfonia…

Olho e extasio-me
Perante o que vejo,
Para, afinal, constatar,
Olhos em água,
Que o desejo que me abrasa
A mim, mulher casada,
O que me falta,
É tão somente
Uma festa no cabelo,
Um boa-noite, meu amor,
A ternura de um corpo quente,
Belo ou feio,
Presente no meu sono,
Toda a noite junto ao meu.

E nada mais!…


A um chefe

Eu ontem falei com um doido.
Nem sei se sabe que o é,
Mas quer o saiba, quer não,
Só há bolas de sabão
Naquela cabeça ôca....

Do que diz, que é coisa pouca,
Só se aproveita a migalha
Que ele julga ser a loucura
De qualquer comum mortal...

É tão triste de se ver,
A figura dele é tal
Que, como pedaço que esgalha
De um madeiro já não verde,
Só apetece ter pena
De em vida já não viver...

Olhando o morto a falar,
Sem saber que já está morto,
Sinto angústia, sinto um mar,
Percorrer todo o meu corpo...

Como Cristo, só, no horto
Ele braceja e desespera,
Pobre diabo sem dono
Pobre sem tino nem rumo
Jaz ali ao abandono
Julgando-se dono do Mundo...

Mas o Mundo é lucidez,
Não a branda palidez
Da sua vida, azedume,
Contra os outros
Contra tudo...
Não percebe que no meio
Do cardume que pressente
Não são os peixes que pesca
Os que quisera na mente...

A sua pobre figura
De espantalho, de pastel,
Foi retrato de um pintor
Que pinta, desanimado,



O que nos homens não dura....

Vendo o quadro talvez sinta
Talvez veja, finalmente,
O pobre louco doente
Por sobre o Mundo sentado
Que o pintor tem retratado
Com o máximo rigor....

Mas será que o conseguiu?
Que foi isso que ele viu
Pobre louco, pobre pouco?


Ciúme

Eu invejo a beleza!

Odeio a certeza
De um rosto perfeito...
De um corpo
Moldado, num sopro,
Em vidro desfeito
Ainda sem forma...

Ganha jeito
Roda e torna
Sem dureza
Nem ângulos,
Sem a tristeza
Dos traços duros
Dos triângulos.

Aveludado,
Contornos puros
Lã, algodão...
Pés delgados
Bem torneados
Presos no chão...

E toda a planta
Que, adejando, levanta...
Folhas de mãos
Em braços-ramos
De muitos irmãos...
São os braços-dedos
Que em doces segredos
Se enchem de anéis
Ofertas-servidões
De muitos bordéis,
De muitos serões...

É prostituta
A beleza que odeio...
Tem de ser
Para meu prazer!
(meu lenitivo,
o de todo que é feio...)

E rasgo-lhe os lábios
Despedaço-lhe os seios
Rebento-lhe os sábios
Recantos dos meios...
Estrangulo o pescoço
A garganta que encanta
Até que não ouço
O gorgeio que canta...

E podo-lhe o sexo!

Só deixo uma selva
De terra, sem nexo
Para prazer ou paixão,
Mas boa para pão
Boa para lavrar
Para filhos como eu
Gerar e expulsar
Tornando-se mãe
Sem beleza, mas mãe...

E, contudo,
Eu dava tudo
Para, num segundo,
Ter tudo o que é dela...

E dar-lhe o meu mundo
Num breve instante
De paixão e loucura
De carícias subtis
Dedos fortes, viris,
Bebida sensual
Ébria e doce
Vinho espumante
Bebida de amante
Em gemidos de posse
Cabelos, lamentos,
Crinas aos ventos
De Verão ou Inverno...

O que é belo é eterno,
Nem sequer tem estações,
Paragens, estremeções...
É o perfeito a fluir
É o doce elixir
De um mosteiro qualquer...

Bebê-lo, é ser mulher
Sentindo, perdendo,
E voltando a ansiar,
Loucura, exaustão,
Desejo de posse
Loucura, paixão,
Em morte precoce
De tanto se amar...

Morte aparente
Pois é sangue a ferver
Que escalda no ventre...

Tudo num breve instante!...

Porque sei que o restante,
Aquilo que é meu,
É mais importante!

E voltaria a ser eu
E ela a ser ela,
Permanentemente bela
Para o resto da vida...

Mas não me arrependeria
Daquilo que fizera
Num momento passado
Em que fora bela…

Só meretriz,
Mas imensamente feliz!!!....


D. Juan

Dois tôcos pequenos
Em esfera armilar
De nenhuma bandeira,
Sem batalha a ganhar…

Outro tôco, no meio,
Dimensão-solidão
Triste e sem vida,
Religião-dimensão.

Cara redonda,
Bolacha-maria
Crivo-peneira
Sem noite nem dia!

Mãos gordas
Papa-açordas
Violência em raiz
Nascente-torrente
De um rio infeliz

Cinquentão-cinzentão,
Em busca do nada
De verdes-verdura
De tempos passados
(Demência sem cura)

Que ridículo imenso
De querer abarcar
Castelos-visões
Com a triste moeda
Que tem p´ra pagar…

É assim que eu o vejo
Quando pobre diabo
(Três tôcos pequenos
Em esfera armilar
Tolhidos de cio)
Se põe a aguardar
A sereia-sorriso
Do oitavo andar!


Vida

Eu vi a Morte no Horizonte!

Era rubra e calma,
Ao fundo dum monte...
Penetrava a alma,
A doçura que tinha,
Sulcada do eterno
Esqueleto que vinha
Das árvores de Inverno...

Não era, não,
A morte papão,
Que se teme e se chora,
A morte do cristão.

Não, não era,
Era mais uma espera,
Uma pausa,
Uma melodia...

Por sua causa
No monte, no dia,
Havia paz!
Era a morte serena
A morte que se faz.

O cerrar dos olhos
No vermelho do monte
O abrir dos olhos
Não interessa onde,
Mas longe, muito longe,
De todos, do hoje
Que me angustia.

Sim, no Horizonte
Está o que queria:
Em águas sem ponte,
Torrente revolta,
Aguarela, sem volta,
De terra distante...

Morte amante,
Morte amiga,
Abrir-lhe os braços
Como os traços, Arbóreos de porte,
Na linha forte
Do fim da paisagem,
Encarar a viagem.

Ah! Fazer amor
Com a morte
E, no orgasmo final,
Libertar-me da vida,
Ser, enfim, sua igual!


Dia de Outono

A noite fugiu
Abraçada ao vento
E o dia nasceu!...

Um dia de Outono...
Um dia sem côr,
Lento e de sol...
As folhas não caem,
Há luz e calor...
Tudo tão estranho...

O Outono é diferente
É frio, é tristonho,
Com folhas voando,
Aqui e além...
Folhas caídas
Árvores perdidas,
Sonhos esquecidos!...

Mas hoje o sol brilha
As árvores enormes
Estão verdes e cheias,
Os pássaros cantam...

Silêncio no quarto
Silêncio lá fora
Silêncio em mim
Silêncio no Outono!...
Tudo silêncio!...

E o silêncio é a morte.
Onde está a vida?
Onde está o grito
Que nos dará de novo
As folhas caídas
O sol encoberto
A chuva a cair
Os sonhos cansados
O soluço a brotar
Dentro de mim
E com elas o Outono...
A vida?!


FIM
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Sobre a Autora

Nasceu em Julho de 1944, em Luanda. Doutorou-se na Universidade do Porto. Apaixonada pela escrita e pela natureza humana, desde criança que partilha as suas vivências com os outros, quer em prosa, quer em verso.


Contacto de Ana Teia

amteia@gmail.com

Facebook: http://facebook.com/ana.mendesgomes.79


Outros livros da Autora

Do seu repertório literário salientam-se as seguintes obras:

“Dezasseis anos”

“Tóino”

“Trama”

“Na relva onde dormem as formigas”

“A Menina do Casaco Vermelho”

“Ecos” (publicação eminente)

Cópias (físicas e electrónicas) estão disponiveis.

Se sente aventureiro(a), por favor contacte a Autora: amteia@gmail.com


A Menina do Casaco Vermelho (Excerto)


O assobio enroscou-se no ouvido, arrastado e sofrido. O som, desmaiado, encaixado nos dentes e na língua, falava de alguém sem rosto que passava para lá do muro.

As sombras quentes da tarde desmaiavam das árvores de verde nas copas. Coradas, as flores dos canteiros que a avó cuidava. As pálpebras espessas negavam-lhe a visão, cerradas e sonolentas, mas alertavam os sentidos dispersos, os que não acusam nem toleram na ausência de imagens. Sem dormir, o sonho é palpável e calorento. Revê, na penumbra do olhar fechado, a mãe e ela revive, intacta e doce. A mãe que lhe faltou ainda infante. Flashes dela a regressar, calmos, ela a mexer o bolo no pirex, energia nunca vista, e ele sôfrego ao rapar da massa, depois. O cheiro a refogado nortenho sendo ela ilhoa, o azeite a ressumar na frigideira, abanando a cebola, roubando-lhe a cor. Ela a dar o seio à irmã e ele, envergonhado sem motivo no seu pudor de criança. Ela a enrolar as pontas do cobertor no seu corpo ensonado, a beijar-lhe as bochechas em picos de ternura e vales húmidos de saliva. Ela, imóvel, a fingir-se de morta no caixão e a mana, vestido branco e laços brancos e um sorriso branco de espanto, a olhar para ela. Fingira tão bem que nunca mais voltara deixando-os à espera à beira da cova onde se escondera de vez.

Abanou a cabeça. Pensar na mãe acabava sempre na cova funda de terra esfarelada regada de flores, no abandono e magoava-o. Magoa-o que ela os tivesse deixado assim, sem um adeus até depois, e preferido o vazio de um buraco sem ninguém, que não ela. Gostava tanto de companhia, antes. Do pai, deles, da avó. Agora, pensa na avó ouvindo o barulho da louça a ser lavada na pia da cozinha. Restos a tombar no fundo e as bactérias a morá-los, água a escorrer em barulho fresco e sincopado. A limpeza a exalar cheiros químicos de supermercado. O rosto encolhido e rugoso à espreita do sujo, os dedos a rolar nas bordas, a banhar a louça, a afagá-la. Os copos bem entranhados, dedos no fundo a raspar, a contornar bâton nas redondezas dos lábios ao beber, a dispersar espumas e cheiro a tabaco ou gulodices açucaradas dos mais novos. Tabaco, só do tio que a avó dizia iria morrer cedo como a mãe mas que pelo pulmão. Volta-lhe o seio duro da mãe à memória e a boquinha da bebé e o leite a escorrer, a tornar mais clara a pele já clara. Gostava de ser a menina a comer da mãe enquanto o ciúme o avassalava, quente e malévolo, só que já não comia assim. Também mamara, dizia-lhe a mãe a apaziguar. Até teres um ano, e sorria. Já com dentes, a mordiscar o mamilo e ela a ralhar mansamente, morder não, juízo, menino. O pai a rir, ela a rir, e ele sem nada entender com uma vontade enorme de ainda o morder.

O assobio morreu na atmosfera espessa do jardim. Talvez não morresse e continuasse a surgir nos quarteirões mais à frente. Mas, para ele, acabara, pontual e perecível, fantasma audível de alguém a passar.

Entreabre o olhar. A irmã continua imóvel na manta relvada do chão a carregar forças para a brincadeira da tarde que avança. Viera cedo da festa! O rosto envolto em verde cheiroso e húmido, conserva o sorriso no rosto, jus aos sonhos que a tomaram a coberto da digestão. Que sonhos terá uma criança de seis anos? Ele, com nove, sonha com coisas de rapaz daí que deve sonhar coisas de menina Mas que coisas são? Corridas, amigos, gelados e doces? Ou veria a mãe a dormir, imóvel, e ela vestida de branco e fitas brancas no cabelo.

Bem visíveis agora, as folhas abanam no azul eterno do céu de bom tempo. Azulão como diz a avó. Um azul de meter inveja aos azuis de paleta e aos olhares de fotógrafos. A luz a rasgar fendas douradas, nervosas e flexíveis e, nas fendas, insectos de pó.

A cadeira onde recosta o corpo magoa os braços e massacra as pernas. O tronco apoiado e o rabo assente, agradecem. Levanta-se sentindo a preguiça a recalcitrar e esboça os passos que o levarão à casa silenciosa. Espreita. A louça indecisa, meio húmida, meio seca, descansa em equilíbrio instável de escorredouro. Espanta-se sempre que não caia em estertor barulhento, desfazendo-se em cacos. Até agora, nunca se estilhaçara, multidão instável ajustada ao espaço a milímetro.

A avó, agora, lê junto à janela. Muito lê a avó com óculos cansados e olhos vivos e grandes. Também escreve, as pupilas em saltos do fora para o papel, imitando a vida, calcando-a em duas dimensões com a caneta preta. Desliza-a nas linhas duras e nascem vidas, pessoas sem vontade própria ao sabor de quem as cria. Se até com Deus fora assim, pensa. Os homens feitos num estalar de dedos ou em longa evolução? O avô discutia sempre se fora breve ou longa a feitura da gente.

-Avó, posso ir ao rio?

As rugas a ponderar, a voz a formar-se, a gorgolejar na boca.

- Podes, mas não leves a mana. Está muito calor.

Acenando que sim, corre pelo traço curvo do caminho em pedras entaladas, salta o vão da cancela que abriu. Está solitária a tarde, por ali. Ninguém à vista. Ao fundo do fundo que o olhar atinge, só um vulto escuro a dobrar a rua em ângulo. Para a esquerda pressente-se a frescura da água sulcando o leito eriçado das margens. As pernas nuas sentem o picar dos ramos que se atravessam no caminho. Pequenos arranhões vermelhos e ardentes surgem no queimado da pele de sol e sal da praia. No enviesado da estrada, um atalho e um suspiro do vento brando, nascido da água que se pressente. Sempre se arrepiara de prazer ao toque da brisa que nasce à beira do rio, só ali. A frescura que veste, roubada às moléculas molhadas de oxigénio, respira-o. Saboreando o calor do seu corpo engole-a em tragos grandes e rápidos,. O bem-estar da temperatura a descer antes do banho, o desejo de mergulhar, intenso, absorve-o. Sugado por ele, mal consegue o despojar-se do que não interessa e chegar aos calções obrigatórios mas que pesam na vontade da nudez. Não se nasce com roupagens, o corpo reclama. No canavial, o silêncio impera. Silêncio que pesa porque natural e sem contrastes. Nada mexe além das plantas, atiradas ao acaso da aragem. O próprio ar estaca em cada golfada que se respira. Não há aves a bater asas ou a gritar pelos ninhos. Não há passos amortecidos pelas ervas rasteiras do lodo aguado e sujo. Sente o frio deste silêncio na água que o envolve e lhe sussurra ao ouvido lamentos de água, húmidos e queixosos.

Do lado da quinta da serração vem, agora, um silvo dolente e cortante de algo que serra, de madeira que estala e se rasga. Silvo que vai e vem e desaparece no fim do corte até que a serra volte ao repasto do serrim. Faz barcos e as árvores sabem, sentem na pele a utilidade que têm, o destino da sua textura. Ou morrem esmagadas pelo fogo ou se deixam talhar em barcos ou mobílias ou se decoram em sonhos de natal, repletas de fitas e bolas e luzes a piscar.

O corpo enquista-se e parece encolher, em excesso de pele. Os dedos, nas pontas, enrugam e aclaram, trufas albinas, pequenas e mumificadas. Pequenos seres lhe cruzam os membros em toques escorregadios e agita-os a exorcizá-los. Pedaços de ramos, peixes e cobras escorregadias, habitantes legítimos do terreno que pisa e conquista. Água doce, repleta de sais que não sabem na língua mas que alimentam a vida que o envolve. Revigorado, afastando o ar pesado, ao passar, refaz os movimentos da chegada, repõe a ordem.

No caminho, rodeada de folhas, uma nódoa vermelha, rasando o chão.



Tinha crateras de formigas no olhar azul. O louro da morte nos cabelos. O corpo em ângulos torcidos, incapazes em vida. As pernas, bordadas de pequenos golpes, escapavam da saia branca suja de lama. Joelhos estriados, na ausência de músculos em movimento, espelhavam estranheza. Feitos para correr, indignavam-se da imobilidade forçada. Uma cascata de rio caía-lhe no rosto, do seu rosto colado ao dela a centímetros. Respirava-lhe o silêncio e a não vida, pálida e exangue. Vira a mãe morta quando chorara a sério, o seu rosto perdido, mas agora nada, só a água dos seus olhos deslizando no dela. Procurou-a em volta como a procurara a ela. Sempre pensara que as pessoas mortas viveriam perto, em círculos de espanto. Mas só um pardal debicava sementes esquecidas da sementeira do campo. Cantarolou em surdina a canção da mãe que lhe viera ao pensamento. Estarão de mãos dadas e a dele vazia? Adoptou ela esta menina morta ali, perto de casa? A angústia mordeu-lhe o pensamento e afastou-se um pouco. De mais longe, o rosto ganhou forma de criança, mas não de criança das suas escolas. Nunca a vira por ali, desconhecida e estranha na sua inércia. Tocou o braço magro sentindo os ossos arrepiados ao toque. O frio da mãe ressurgiu na memória e recuou, a mãe voltava em soluços de saudade e não permitiria. O pardal, em meneios de cabeça tonta, comia e não ligava à morte, ali ao lado. Tentou olhar a menina sem que a ausência da vida o perturbasse. A boca entreaberta em lua crescente, deixava que a falta de um dente espreitasse. Lábios brancos a pedirem beijos, na tortura gelada de um sorriso por acabar. Sentiu o calor a tentar pintá-los e a fraqueza do gesto. Lábios mortos não aquecem, não voltam à cor de novo. Os caracóis eram lindos, em cachos na face, bordejando as linhas suaves e ovaladas das maçãs. Era uma menina morta e bela, que fazer? Ao lado, viu-o. Era um carro pequeno, escamado de prata no cimo de uma corrente com argola de dedo. Porta chaves de criança, brincara o pai com ele e brincavam eles agora. À vez, rolavam o indicador na curva fria e fechada do metal. Há coisas que arrastam a calma da figura de alguém. Brilhava no chão salpicado de folhas a apontar identidade e ondas de medo. Fora estrela em adorno natural no peito e seria xerife. Mas um carro sem capota não dava autoridade, não distinguia pessoas. Agredira-o de imediato e um baque cortara o coração esquecido de bater. Que fazia ali, junto à nódoa vermelha, no calor do pós banho de rio? À morta, não a conhecia, que os ligava num porta-chaves? Apalpado de receio quis rebobinar a tarde e não ter cedido ao desejo da frescura das águas. Não sentia a menina, só o metal, no aconchego das árvores em pedaços a envolvê-la. O dedo moveu-se, independente, a tocar o frio prateado, a revolvê-lo no crepitar do folhedo, ao raspá-lo. Hipnotizante, o reflexo impunha-se. O dedo virou mão a apertar o descapotável até doer. O bolso acolheu-o no segredo do forro, descosido mas seguro. O sangue acelerado falava, no cérebro, dúvidas e angústias. Olhado de pé, o cadáver minguava, pequeno e insignificante no seu carisma necrófito. Desejou que as lagartas brancas que devoram a carne tivessem cumprido a missão mas era cedo, a morte surgira há pouco pelo ar de vivo que ainda dela se esfumava. Levaria dias e anos até o osso ser só osso e virar esqueleto sem nome. Desconhecia as artes da biologia e o seu poder de acusar, de apontar gente, de aprisionar em grades duras de janelas. Curvado sobre ela no desejo de a apagar, pensou rápido. Já direito, o olhar em volta, a girar, não viu ninguém. Uma onda de tristeza empurrou-o para a fuga sem a olhar de novo. Lento, conformado, fez o devido e levou os passos para longe no carreiro que apontava a casa? Alguém que a encontrasse como se fosse o primeiro e se espantasse e a chorasse profundamente, ele não. O peito, pesado da suspeita, tirava-lhe o pai.

E nada contara.


Impressão e Acabamentos

Várzea da Rainha Impressoras, S.A.

R. Empresarial nº 19

Zona Industrial da Ponte Seca

2510-752 Gaeiras – Óbidos, PORTUGAL



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